Cuidar de pessoas dá lucro. Quais números provam isso?

Luciana Lopardo, VP da MDS Brasil, responde a pergunta que trava todo pedido de orçamento de bem-estar. Ela cita quatro indicadores que o financeiro já acompanha, e conta como decidiu investir em terapia por diagnóstico e não por pedido.

Cuidar de pessoas dá lucro. Quais números provam isso?
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Jul 16, 2025 02:10 PM
Toda área de RH que propõe um programa de bem-estar ouve a mesma pergunta: qual é o retorno disso? A maioria não tem resposta. Luciana Lopardo tem.
A gente diminuiu a sinistralidade do plano. Esse é o indicador que talvez muitos RHs tenham dúvida: que tipo de indicador melhora?
Ela é vice-presidente da MDS Brasil, corretora de seguros com cerca de 1.800 funcionários, e tem mais de 20 anos de RH. Setor conservador, empresa em expansão por aquisições, e uma tese que ela repete: cuidar de pessoas dá lucro, e dá para medir.
Esse texto reúne o método que ela descreve, com os números que ela usa para sustentar cada decisão.

Os indicadores que ela olha

Quando perguntada sobre como mensurar bem-estar, ela não cita engajamento nem satisfação. Cita quatro coisas que aparecem no orçamento:
Indicador
Por que serve
Sinistralidade do plano de saúde
Cai quando as pessoas adoecem menos
Coparticipação
Mostra quem deixa de usar a assistência por causa do custo
Afastamentos
Medida direta de saúde da operação
Saídas da empresa
O custo mais caro e o mais ignorado
São quatro números que o financeiro já acompanha. A vantagem de escolher indicadores que já existem é que ninguém precisa acreditar na sua metodologia, só olhar a própria planilha.

Como decidiram investir em terapia, e por que não foi por pedido

Aqui está a parte mais replicável do episódio, e ela começa com uma recusa:
O colaborador pede o quê na vida? Pede tudo. Ah, eu quero fazer massagem, quero fazer a unha. Eu sou a pessoa que entende que a gente tem que fazer coisas que sejam concretas, coerentes e efetivas.
Em vez de responder a pedidos, eles usaram um instrumento que a própria empresa vende:
Uma corretora de seguros é uma consultoria. A gente faz como se fosse um mapeamento da saúde das pessoas. A gente faz isso para os nossos clientes, fizemos isso para os nossos colaboradores.
O resultado foi inequívoco:
Quando a gente fez esse material, a gente entendeu, gritante, que a gente tinha uma questão de saúde mental.
Daí veio a decisão: buscar um parceiro e oferecer terapia a todos os colaboradores, sem a empresa saber quem usa. Segundo o parceiro, a MDS virou case de sucesso na base dele.
E vale registrar o timing: eles começaram antes de a nova norma de riscos psicossociais tornar o tema obrigatório.
A gente já tínhamos.
A diferença entre orçamento aprovado e orçamento negado costuma estar no diagnóstico que veio antes do pedido. Um levantamento de saúde da população transforma um benefício em resposta a um problema medido.

O turnover caiu, e ela não credita só à terapia

Quando perguntada diretamente sobre o que prova que cuidar de pessoas dá lucro:
A gente diminuiu o turnover nos últimos quatro anos, consideravelmente. E isso tem a ver não só com uma questão da terapia, mas com uma série de coisas: programas mais bem estruturados, uma fala mais transparente para o colaborador, espaço de escuta, e uma organização de cargos e salários.
Repare na honestidade metodológica. Ela poderia atribuir tudo ao programa que é fácil de vender internamente. Não atribui.
E o item de cargos e salários veio com uma decisão pessoal incomum:
Eu pessoalmente fiz uma conversa em grupos, explicando o que é cargos e salários, quais são as faixas salariais, como que a gente se vê na faixa. Porque são temas que a pessoa escuta na vida e não tem clareza.
O motivo de ter feito ela mesma:
Porque eu queria estar ali, eu queria escutar o que aquelas pessoas iam me falar.

Por que as pessoas realmente saem

A tese dela sobre saída é direta:
As pessoas não saem por conta de dinheiro. Não saem, gente.
E o argumento que ela usa é melhor que a afirmação. Não é que dinheiro não importa, é que ele deixa de ser percebido:
Pensa você, há dez anos, quanto você ganhava. Você adequa a sua vida para aquele salário. Muda seu filho de escola, compra um carro diferente. Só que a vida que você vive, onde você está no dia a dia, se você não está feliz ali, não tem o que fazer.
Ela não romantiza:
Não quero ser hipócrita. Óbvio que ter mais dinheiro é bom, a gente tem uma qualidade de vida.
A mesma leitura, vinda de outra executiva com quase quatro décadas de carreira, aparece em remuneração atrai, mas não engaja.

Nove aquisições em quatro anos: o protocolo

A MDS cresce comprando empresas, e ela é categórica sobre a dificuldade:
Dos meus últimos anos de carreira, esse é o meu maior desafio. Sentar aqui e falar que é alguma coisa simples seria inôcencia, porque não é.
O detalhe que muda tudo: eles não compram e demitem.
A gente traz as pessoas, traz o dono da empresa para dentro.
Foram nove aquisições em quase quatro anos. A ordem de comunicação que eles chegaram depois de repetir isso nove vezes:
  1. Primeiro, as pessoas da empresa comprada. Presentes: o dono, o executivo do comitê responsável pelo negócio, o CEO fazendo a comunicação, e ela, sempre.
  1. No mesmo momento, os colaboradores da MDS.
  1. Depois, a imprensa.
E uma avaliação honesta sobre a eficácia dessa primeira conversa:
A gente pode falar o que a gente quiser, as pessoas não estão ouvindo nada. Elas só estão pensando: o meu emprego, a minha vida, a minha família, o que vai mudar.
Com a conclusão certa:
Mas também não justifica não ter essa conversa.
Por isso existe uma segunda rodada, depois, já com o trabalho prévio de harmonização de benefícios e cargos feito. A informação que importa nunca cabe na reunião em que o susto acontece.

O aprendizado que ela só teve depois de errar

Esse trecho é o mais útil para quem participa de fusões:
Eu peço para falar com todos os sócios antes de terminar a venda, porque eu falo para ele a real como vai ser. Aqui vai ser assim, funciona desse jeito, você entendeu? Qual é a sua preocupação? Tem alguém que para você seja fundamental?
E o motivo de ter passado a fazer isso:
Antes disso não acontecia. E eu percebi que faltava ter essa conversa, porque depois, no dia dois, vinha: não, mas olha só, veja bem.
O ganho é ter um ponto de referência para as conversas difíceis que virão:
Quando vem uma conversa mais difícil, eu falo: lembra que a gente teve aquela conversa? Então eu volto para aquele ponto.
Ela também observa que o que mais preocupa quem é adquirido não é cargo nem chefe, é mudança de benefício. E que isso vale para todas as gerações, não só para os mais jovens.

A escuta que não é muro de lamentação

A prática mais copiável do episódio cabe numa pergunta. Ela tem uma máxima com o time:
Quando alguém te traz um problema, você pergunta para a pessoa: o que você quer que eu faça com isso?
O racional é duplo:
Às vezes as pessoas buscam porque elas querem ser escutadas, mas elas não querem uma ação. Ou às vezes elas querem que você faça uma ação, mas você precisa entender melhor.
E o efeito colateral, que é o melhor:
Às vezes a própria pessoa encontra o caminho dela.
Ela nomeia o que está tentando evitar:
Às vezes o RH fica muito no papel da escuta, mas de uma escuta de muro de lamentação. E muro de lamentação a gente não controla.
Ela também reconhece o próprio vício oposto:
Eu, apesar de ter todo esse lado humano, sou muito racional. O meu natural é: quando vem um problema, eu desenho o mapa. Só que a minha solução não é necessariamente a solução que é para ele.

Ela lê todas as pesquisas

Uma prática que ela mesma admite ser incomum:
Eu tenho uma prática de ler todas as pesquisas. A gente fez um treinamento de liderança, já foram 250 líderes. Eu leio todas as respostas.
E o retorno disso não é relatório, é matéria-prima de decisão:
Isso me dá um insumo do que as pessoas estão falando.
É também o que explica por que ela é consultada em decisões que não são de RH:
Hoje, algumas decisões difíceis que a empresa tem para tomar, os VPs me buscam. Lu, pensei nisso, o que você acha? Eu falo: não faz isso, ou faz isso daqui a tanto tempo, porque agora tem esse impacto.
Repare que a contribuição dela não é vetar. É informar o momento certo, que é uma coisa que só quem lê o clima em tempo real consegue dizer.
Ela credita parte disso ao próprio time:
Eu tenho um time de RH muito presente. Desde que eu entrei, ninguém saiu.
E uma escolha deliberada na montagem dele:
Seria mais fácil trazer as pessoas que a gente conhece. Mas é legal também a gente conhecer outras. E eu tive gratas surpresas.

Cafés com a liderança, sem pauta

O ritual que sustenta a conexão é simples: grupos de 15 a 20 pessoas, conversas sem tema definido.
A gente fala sobre carreira, sobre futuros, sobre a nossa própria história de vida. Porque às vezes as pessoas olham os executivos e falam: nossa, a pessoa está lá. Mas você tem uma trajetória para chegar ali.
E o mecanismo:
Quando a gente chama elas para conversas que não têm a ver só com o trabalho, a conexão de trabalho vem depois. Ali você acaba entendendo quais são as dificuldades que aquela pessoa tem no trabalho.
Durante a pandemia, ela manteve o formato online e mandava petiscos para as casas.
Vale notar que a MDS chegou na pandemia com um dia de home office já estabelecido e equipamento na casa das pessoas, o que evitou o desespero de equipar todo mundo às pressas.

Os aprendizes, e a história do crachá

A MDS traz aprendizes, forma internamente e efetiva muitos. O reconhecimento veio de fora:
Uma CEO de uma dessas ONGs me procurou e falou: Lu, a gente queria fazer um trabalho lá dentro para entender por que lá eles ficam, são efetivados e são felizes.
Porque nas outras empresas com o mesmo programa, o padrão é outro: cumprir a cota e encerrar. A explicação dela é curta:
Todo mundo tem um olhar diferente para esses aprendizes que chegam. Todo mundo está lá para fazer dar certo.
E a história que ela guarda é esta. Um gestor a procurou emocionado depois de perguntar a um aprendiz como tinha sido o primeiro dia:
Ele falou: quando eu cheguei em casa com o meu crachá, o meu crachá rodou toda a comunidade, porque nunca ninguém viu um crachá.
A reação dela:
Eu fico olhando para a cara daquele menino e pensei: que eu nunca teria pensado nisso.
Primeiro emprego formal não é uma linha no currículo de alguém. Às vezes é o primeiro da família inteira, e o crachá vira prova disso para uma comunidade que nunca tinha visto um.
Ela acrescenta o que veio depois, que é a parte difícil: o mesmo jovem passou por situações pessoais complicadas que atravessavam o trabalho.
Não é toda empresa que está disposta a olhar para isso e falar: tá bom, vem cá. E a gente estava lá do lado dele.

Liderança: vulnerabilidade e assessment

Sobre o que a empresa precisa oferecer ao líder antes de cobrar dele:
Primeiro, a empresa tem que ter um ambiente que seja saudável e o líder possa mostrar a vulnerabilidade dele. Se ele não sabe o que fazer, ele precisa poder pedir ajuda para alguém.
Além de programas estruturados sobre feedback e conversas difíceis, eles fazem assessment de competências. O exemplo que ela dá mostra para que serve:
Eu já trabalhei com um líder que era incrível, mas ele não conseguia falar em público. E aquele lugar para ele era tão difícil que minava outras coisas que ele era bom.
Encontraram ferramentas para ele operar naquele contexto. O objetivo do assessment ali não foi classificar, foi impedir que uma dificuldade pontual contaminasse o resto.

As duas competências que ela considera decisivas

Autoconhecimento, e ela é taxativa:
O líder que se conhece sabe do que ele é capaz, sabe quais são as dificuldades, sabe o que não dá para ele. O líder que não se autoconhece vai ficar no caminho. Se ele não ficou hoje, em algum momento ele vai ficar.
Com uma formulação que vale para qualquer carreira:
Muitas vezes na minha vida eu não soube o que eu queria. Mas eu sempre soube o que eu não quis.
Conversas difíceis e feedback, que ela classifica como atemporal justamente porque não se resolve:
Desde que eu comecei em RH se falava sobre feedback. E por todas as empresas que eu passei, as pessoas têm dificuldade em dar feedback. Segue sendo um ponto complexo.
Ela liga isso ao maior risco do momento:
As pessoas, às vezes, tomam decisões para não ter conversas.

IA e o limite dela

Eu enxergo a inteligência artificial como uma ferramenta incrível. Mas nada substitui o contato humano, o olho no olho.
O exemplo que ela dá é concreto. Numa comunicação de aquisição, ela percebeu uma pessoa na plateia se fechando aos poucos, procurou ela no fim e a abraçou.
A IA poderia ir lá e fazer toda a comunicação. Mas a percepção humana, ela não.
E o volume que dá escala ao problema: uma das aquisições recentes trouxe 800 pessoas.
São 800 pessoas que têm as preocupações, que têm a vida delas, que têm família, têm angústias.

Por onde começar, na recomendação dela

Perguntada o que um RH pode fazer hoje para ganhar esse espaço, ela dá dois passos, nessa ordem.
Entender como a empresa funciona.
Primeiro a gente precisa entender qual é o funcionamento da empresa, para qual caminho ela está indo. Se eu lido com executivos, como esses executivos pensam? Como eu consigo levar uma informação para que eu seja escutada?
Depois, a escuta ativa, aquela que devolve a pergunta em vez de só acolher.
E o limite honesto do que a área consegue:
O RH faz muito, mas ele não faz nada sozinho. Se a liderança não estiver engajada, se as pessoas não acreditarem, você vai ficar falando para o vento.

Assista ao episódio completo

Video preview
Luciana Lopardo, vice-presidente da MDS Brasil, no Clube RHZ em parceria com o Kienbaum Insights, com Diego Cidade, Amanda Saconato e Tycianna Lima.

Perguntas frequentes

Como provar o retorno de um programa de bem-estar?
Com indicadores que a empresa já acompanha: sinistralidade do plano de saúde, coparticipação, afastamentos e saídas. São números que dispensam metodologia própria para serem aceitos.
Como escolher qual benefício oferecer?
Por diagnóstico, não por pedido. A MDS aplicou em si mesma o mapeamento de saúde que faz para clientes e encontrou saúde mental como a questão dominante antes de contratar qualquer coisa.
O que realmente faz uma pessoa pedir demissão?
Na leitura dela, o ambiente. O salário deixa de ser percebido conforme a vida se ajusta a ele, enquanto a experiência diária continua sendo sentida todo dia.
Como comunicar uma aquisição para os colaboradores?
Primeiro para as pessoas da empresa adquirida, com o CEO presente; no mesmo momento para os colaboradores da compradora; depois para a imprensa. E prever uma segunda conversa, porque na primeira o susto impede a compreensão.
Qual erro evitar numa integração pós-aquisição?
Não conversar com os sócios antes de fechar a venda. Explicitar como as coisas vão funcionar e perguntar o que preocupa cada um evita a renegociação informal que aparece nos dias seguintes.
Como o RH sai do papel de muro de lamentação?
Com uma pergunta: o que você quer que eu faça com isso? Ela separa quem precisa ser ouvido de quem precisa de ação, e frequentemente faz a própria pessoa encontrar a saída.

O que fazer com isso

Se você vai propor um programa de bem-estar no próximo ciclo, inverta a ordem. Levante primeiro o perfil de saúde da sua população e leve o diagnóstico junto com o pedido. Benefício proposto sem diagnóstico compete com todos os outros pedidos; benefício proposto com diagnóstico compete sozinho.
E teste a pergunta com o seu time nesta semana. Na próxima vez que alguém trouxer um problema, antes de resolver, pergunte o que a pessoa espera que você faça com aquilo. Custa uma frase e muda a conversa inteira.
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Escrito por

Diego Cidade
Diego Cidade

CEO da Academia do Universitário

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