Programa de estágio afirmativo: por que a JDE Peet's fez 70% e não 100%

A JDE Peet's começou a agenda de inclusão em 2020 e só rodou o primeiro programa de estágio afirmativo em 2024. E quando rodou, fez 70%, não 100%. Ana Ferrarezi explica a conta por trás dessa calibragem e por que 100% teria sido irresponsável.

Programa de estágio afirmativo: por que a JDE Peet's fez 70% e não 100%
Do not index
Do not index
Created time
Sep 9, 2026 06:40 PM
Quase todo programa de estágio afirmativo que dá errado erra na mesma coisa: prometeu 100%.
A JDE Peet's, dona de Pilão, L'OR, Café Pelé e Caboclo, fez diferente. Começou a agenda de inclusão em 2020 e só rodou o primeiro programa de estágio afirmativo em 2024. Quatro anos depois. E quando rodou, calibrou em 70% das vagas, não em 100%.
A decisão parece menos ambiciosa. É o contrário: é a decisão que fez o programa funcionar.
Quem conta é Ana Ferrarezi, HR Manager da JDE Peet's para a América Latina, no podcast RHZ.

Antes do afirmativo, quatro anos de preparação

A ordem que eles seguiram veio de uma frase do próprio presidente da operação, que Ana repete:
Eu não quero falar de diversidade e inclusão, eu quero falar de inclusão e diversidade. Eu primeiro preciso ter um ambiente inclusivo, preciso ter ferramentas inclusivas, para depois conseguir trazer a diversidade para cá.
A inversão da sigla não é firula. É sequência.
E existe um nome para o que acontece quando a ordem é invertida. Ana chama de amalgamar a diversidade:
É quando eu trago esse público diverso para dentro de uma organização que não tá preparada para isso. E aí a diversidade entra aqui dentro e ela fica igual. A gente destrói a diversidade depois que ela tá aqui.
Esse é o custo escondido do programa afirmativo apressado. A empresa contrata, comemora o número, e em doze meses o indicador volta ao que era, porque o ambiente moldou as pessoas de volta ao padrão em vez de ser transformado por elas.

Como a agenda foi aprovada: um dado de marketing

A parte mais replicável do case é como eles conseguiram patrocínio interno. Não foi com argumento moral.
A gente vende café, e o café está presente em 98% dos lares no Brasil. É a segunda bebida mais consumida depois da água. Então, como não falar de diversidade? Como não ter a diversidade dentro do nosso negócio para poder se conectar com os consumidores do Brasil inteiro?
E um segundo dado, esse ainda mais direto:
Quem toma decisão de compra lá na gôndola, 80% é composto por mulheres. Se eu tenho uma organização onde 80% é composta por homens, quem está tomando essa decisão não está conversando com a tomadora de decisão lá na gôndola.
Repare no movimento: ela pegou um número que vivia em marketing e usou para sustentar uma agenda de pessoas. É assim que o tema sai da categoria de iniciativa simpática e entra na categoria de risco comercial.
Ela resume a analogia:
Como que eu vou ter um board de inovação de absorventes composto pela maioria por homens que não vivem essa realidade?

A conta dos 70%

Agora a parte que ninguém publica.
Quando chegou a hora de desenhar o programa de 2024, a decisão óbvia seria 100% afirmativo. Eles fizeram um estudo e chegaram em 70% para pessoas pretas, pardas e indígenas. O raciocínio:
Uma vez que você não faz de forma inteligente, você pode ter a sua área de talent com a reputação abalada. Porque no próximo vão falar: vocês falaram que ia fazer afirmativo, os candidatos demoraram a chegar, no final das contas não veio o afirmativo, o programa não funciona.
O fator decisivo foi geografia. Ana aponta o erro de usar a média nacional:
Quando a gente fala de representatividade de pretos e pardos no Brasil, é quase 60%. É maior do que pessoas brancas no nosso país. Só que eu tenho que entender a representatividade das localidades também. Quando eu venho pro Sul e Sudeste, isso diminui. Quando eu vou pro Norte e Nordeste, aumenta de forma muito significativa.
A JDE Peet's tem operação em localidades onde contratar já é difícil mesmo sem recorte. Os 30% não afirmativos foram a margem para essas praças, para o programa não travar e não deixar gestor sem estagiário.
Tudo tem que ser smart. Alcançável, mensurável, possível e desafiador. Porque se não for, vamos repensar e redesenhar.
A lição prática: a meta de um programa afirmativo não se define pela representatividade do Brasil. Define-se pelo cruzamento entre representatividade da praça, dificuldade de contratação naquela praça e o recorte de curso exigido pela vaga. Engenharia no interior do Sul e administração em capital do Nordeste são dois programas diferentes, ainda que na mesma empresa.

A pergunta que a AU faz antes de aceitar um programa afirmativo

Esse ponto vale registrar porque é posição da casa, e Diego Cidade a coloca no episódio.
Quando uma empresa chega pedindo um programa afirmativo, a primeira pergunta não é sobre o perfil do candidato:
Pode me mandar quais são as políticas que vocês têm para sustentar essas pessoas aí dentro? Ah, não, a gente não tem. Então veja bem: os gestores não estão sensibilizados o suficiente, não tem estrutura para dar suporte para essa galera. E aí, o que vai acontecer? Vai dar ruim.
E a consequência é recusar o projeto:
Não vou botar a minha marca em jogo para um programa afirmativo de algo que vocês não vão conseguir sustentar. Aí vai todo mundo se frustrar: a pessoa contratada, o líder, vocês, a gente.
Se a empresa não tem política, gestor sensibilizado e estrutura de suporte, o programa afirmativo não é avanço. É exposição de pessoas reais a um ambiente que vai devolvê-las ao mercado em seis meses.

O que ela mediu, e como parou de ser "fluff"

Houve um momento de virada. Ana inscreveu um projeto de cultura num programa interno de reconhecimento e foi reprovada com uma justificativa dura: não deu para conectar os resultados do projeto aos resultados do negócio.
A reação dela mudou o método da área:
Ao invés de focar na reclamação e no problema, eu falei: bom, então me aguardem pro próximo programa. Ao construir, eu já fui conectando. Onde a gente vai mexer o ponteiro com essa ação? É no turnover? É no engajamento? Em quais perguntas da pesquisa de engajamento eu posso conectar esse resultado?
E o nome que ela dá para o problema é exato:
Como que eu coloco o analytics dentro dos programas de desenvolvimento e cultura para mostrar que isso não é fluff?
Ela também aponta a assimetria de prazo que atrapalha esse tipo de programa: ações de cultura levam de três a cinco anos para mostrar resultado, enquanto a cobrança é anual. A saída que ela encontrou não foi pedir mais prazo, foi amarrar cada iniciativa a um indicador que já existia na empresa.

Cultura não se resolve com palestra

Sobre como tornar cultura algo vivo, ela é direta em dois pontos.
O primeiro é que o plano de ação quase nunca é treinamento:
Não é através de treinamento e palestra que a gente vai viver a cultura de fato. O plano de ação vai desde mexer e reestruturar processos dentro da organização, e nem sempre processos de RH, mas processos dentro da operação, aquilo que impacta a experiência de fato do associado.
O segundo é quem executa:
Muito mais importante do que o RH é a liderança. A liderança tem um papel fundamental dentro desse processo.
E um detalhe de execução que vale roubar: parte do cascateamento de cultura na JDE Peet's acontece pela área de facilities das fábricas, incluindo o folder no acrílico atrás da porta do banheiro. Comunicação interna em operação industrial não é e-mail.

Começar sem esperar autorização

Um último ponto, e esse é sobre coragem organizacional. A agenda de inclusão da JDE Peet's nasceu no Brasil, sem mandato global.
Eu sou muito do método de pedir desculpa do que pedir licença.
O desfecho é o melhor argumento possível a favor disso: a área global não só aprovou como passou a envolver o Brasil na construção e a usar a operação brasileira como referência de benchmark para outros países. Segundo Ana, o Brasil foi o primeiro país do grupo a chegar ao terceiro dos quatro estágios de maturidade da jornada.
O gatilho, aliás, não veio da liderança. Veio de perguntas repetidas dos próprios funcionários num fórum aberto com a diretoria.

Assista ao episódio completo

Video preview
Ana Ferrarezi no RHZ com Diego Cidade
Ana Ferrarezi, HR Manager da JDE Peet's para LATAM, no RHZ com Diego Cidade. 59 minutos sobre cultura, DE&I e marca empregadora.

Perguntas frequentes

Programa de estágio afirmativo precisa ser 100%?
Não, e forçar 100% costuma ser o erro. A meta deve sair de um estudo que cruze representatividade da praça, dificuldade de contratação local e o recorte de curso da vaga. No case da JDE Peet's, esse cálculo resultou em 70%.
O que precisa existir antes de rodar um programa afirmativo?
Política interna, gestores sensibilizados e estrutura de suporte. Sem isso, o programa contrata pessoas para um ambiente que não as sustenta, e o resultado é evasão e frustração dos dois lados.
Quanto tempo leva para preparar o ambiente?
Na JDE Peet's foram quatro anos entre o início da agenda de inclusão e o primeiro programa afirmativo. O prazo depende de quanto já existe de política, liderança preparada e ferramenta inclusiva.
Como conseguir patrocínio da diretoria para a agenda de inclusão?
Conectando a um dado de negócio, não a um argumento moral. No case, o dado foi comercial: 80% das decisões de compra na categoria são tomadas por mulheres, o que torna a representatividade interna uma questão de proximidade com quem compra.
Por que ações de cultura são tão difíceis de justificar?
Porque o resultado leva de três a cinco anos e a cobrança é anual. A saída é amarrar cada iniciativa, desde o desenho, a um indicador que a empresa já acompanha, como turnover ou perguntas específicas da pesquisa de engajamento.

O que fazer com isso

Se você está desenhando um programa afirmativo para 2027, comece pelo estudo de praça antes de anunciar a meta. Uma meta de 70% entregue vale mais que uma meta de 100% que vira 40% e queima a credibilidade da área.
E antes disso, responda com honestidade: se essas pessoas entrarem amanhã, o ambiente sustenta?
Esse mesmo padrão de arrumar a casa antes de falar com o mercado aparece em outro episódio do RHZ, no case ICONIC de employer branding. Se o seu programa ainda está sendo estruturado, vale ver como estruturar um programa de estágio e como medir a taxa de efetivação.
Programa de estágio bem feito é sistema, não improviso. A AU é o Sistema Operacional de Estágio que empresas como Vibra Energia, Ipiranga, Volkswagen e Cyrela usam para atrair, gerir e desenvolver estagiários com método. Fale com a gente e veja como fica na sua operação.

Do recrutamento ao desenvolvimento: você pode fazer tudo com a AU.

Sua jornada com Super Estagiários começa aqui.

Saiba Mais

Escrito por

Diego Cidade
Diego Cidade

CEO da Academia do Universitário

google-site-verification: googled5d5ba6e289bcbad.html