Profissões de futuro: você não será substituído, o que você faz pode ser

Daniel Orlean e Marcel Gama, da UniFECAF, sobre por que a pergunta certa não é qual será o futuro do seu trabalho, e sim quais trabalhos terão futuro. E o método para enxergar isso antes.

Profissões de futuro: você não será substituído, o que você faz pode ser
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Sep 9, 2026 08:10 PM
A pergunta que todo mundo faz é qual vai ser o futuro do meu trabalho. Daniel Orlean acha que ela está invertida.
A gente está muito preocupado com como as nossas profissões vão estar no futuro, quando na verdade a gente podia gastar muito mais tempo pensando em quais são as profissões que vão ser relevantes no futuro.
A diferença entre as duas perguntas é a diferença entre se defender e se posicionar. E ela vale tanto para a pessoa quanto para a área de RH que precisa decidir hoje quem contratar e formar.
Orlean é engenheiro de computação e mestre em informática, fundou uma EdTech que virou a Affero Lab e foi vendida ao grupo Bertelsmann, passou por fintech, foi vice-presidente de marketing do Flamengo e hoje é embaixador da UniFECAF. A conversa é com Marcel Gama, CEO da UniFECAF, um centro universitário criado em 2015 que hoje tem 500 polos e mais de 60 mil alunos.

A correção de vocabulário que muda a decisão

Os dois insistem numa preposição:
Não é que são profissões do futuro. São de futuro, no sentido que vão ter um grande futuro pela frente. Mas já estão aqui, já estão presentes.
Parece firula. Não é. Profissão "do futuro" é uma coisa para observar. Profissão "de futuro" é uma coisa para contratar agora. Cientista de dados, analista de inteligência artificial e creator são os exemplos que eles dão: não existiam nesse formato há dez anos e já pagam bem hoje.
E a frase que reposiciona o medo:
Você não vai ser substituído. Aquilo que você faz pode ser substituído.

Como prever: coletar sinais

Essa é a parte metodológica, e é a mais aproveitável. Orlean parte de uma frase de William Gibson:
O futuro já está aqui. Ele só está mal distribuído.
E mostra como isso vira método, usando a própria indústria dele como exemplo. Há vinte anos, verba de marketing era meia dúzia de redes de TV e grandes jornais. Depois passou a se dividir com o digital, mas ainda numa proporção de 70 para 30. Hoje uma fatia relevante vai para influenciadores, e não para os grandes:
Influenciadores de nicho. Influenciadores que têm 5 mil, 10 mil, 20 mil, 50 mil, que estão ali recebendo recursos para divulgar uma marca. Porque fica muito mais autêntico.
O sinal, lido corretamente, não é "influenciador está na moda". É que a mídia está se descentralizando, e isso cria uma função nova com competências específicas que ele lista: definir perfil, monetizar, criar, usar IA para escalar, ler resultado, montar media kit.
Previsão aqui não é adivinhação, é leitura de tendência de orçamento. Para onde o dinheiro está migrando dentro do seu setor, e que trabalho isso passa a exigir. Essa é uma pergunta que a área de RH pode responder olhando o próprio orçamento da empresa.
Orlean também cita Ray Kurzweil para dimensionar a velocidade: a projeção de que este século concentre o equivalente a vinte mil anos de evolução no ritmo anterior. O ponto prático não é o número, é que planejamento de competência com horizonte de década parou de funcionar.

O teste do que vai ser automatizado

Marcel Gama traz um critério simples, que ele credita a um gerente comercial do time dele: existe o trabalho que a pessoa faz porque tem que ser feito, repetitivo, com regra clara.
Se você consegue organizar uma regra, isso tem que deixar de ser feito pelo ser humano.
O teste é esse: dá para escrever a regra? Se dá, a tarefa está na fila da automação, independente de quem a executa hoje. Se não dá, provavelmente ela depende de julgamento, contexto ou relação, e aí ela fica.
Ele acrescenta a leitura otimista, vinda de uma palestra que ouviu num evento de marketing nos Estados Unidos:
A IA vai tirar o trabalho chato. E a tendência é que você gaste um percentual muito maior do seu tempo fazendo coisas que te dão prazer.

O que fica com o humano, com precisão

Aqui Orlean sai do clichê e faz uma distinção técnica que vale reter:
A máquina não vai desenvolver consciência, ela vai simular consciência. Abstração, a máquina não abstrai. Ela combina coisas que já existem.
Combinar o que existe contra abstrair o que ainda não existe. É uma régua melhor que "soft skills", porque dá para aplicar numa vaga concreta: essa função exige recombinar padrões conhecidos ou formular um problema que ninguém formulou ainda?
E ele fecha o argumento sem romantismo:
Se a gente aprender a usar essa capacidade de abstração, a criatividade, a empatia, usando as ferramentas certas, aí você fica dez vezes, cem vezes mais produtivo.

O contraintuitivo: o humano vira o diferencial caro

O ponto mais interessante para quem desenha atendimento e experiência:
Nessa época em que todos os atendimentos estão sendo via máquina, um grande diferencial vai ser você pensar em botar um ser humano em algum momento como touchpoint. Quanto mais a gente automatiza tudo, mais o ser humano fica carente de falar com uma pessoa.
A consequência para gestão de pessoas é direta e pouco discutida. Se automação vira commodity, o contato humano deixa de ser custo e vira posicionamento. E aí as pessoas que ficam nesses pontos passam a ser as mais estratégicas da operação, não as mais dispensáveis.

Autoridade digital deixou de ser assunto de creator

Esse trecho é o que mais surpreende, porque Marcel Gama tira o tema da caixa "marketing" e coloca na caixa "carreira", para qualquer profissão.
Hoje, todo mundo que é profissional de tudo quanto é área tem que ganhar relevância no digital.
O exemplo dele é deliberadamente banal. Um personal trainer aumenta renda de duas formas: mais demanda ou preço maior por aula. As duas passam por autoridade, e autoridade hoje se constrói publicando. Ele estende isso para nutricionista, advogado, engenheiro, executivo, e cita ter dado o mesmo conselho para a própria esposa, que lidera relações com investidores.
Às vezes o objetivo não é ser um cara de 60 milhões de seguidores, mas ele vai ter uma audiência significativa, vai falar de conteúdo nichado.
E sobre a objeção mais comum:
Antigamente tinha muito aquilo: ah, mas o meu perfil é mais introvertido. Eu acho que se você é introvertido, você tem que superar essa barreira, porque é fundamental.
Para quem contrata, isso muda o que se lê num candidato. Presença pública consistente num nicho deixou de ser vaidade e virou evidência verificável de conhecimento, especialmente em funções onde o portfólio tradicional não existe.

O ofício manual qualificado não é plano B

Provocados sobre a ideia de que "a profissão do futuro é ser encanador", eles não descartam:
Quem fez obra em casa sabe que tem um fundo de verdade nisso, que é a dificuldade de encontrar profissionais qualificados para essas funções que não são automatizáveis.
O exemplo do chaveiro é o mais claro. Quem abre uma porta em quinze segundos está cobrando pelo conhecimento certo, no lugar certo, na hora certa. E a síntese de Orlean serve para qualquer carreira:
O futuro vai ser daquelas pessoas que conseguirem ter as aptidões e os conhecimentos certos para resolver os problemas certos na hora certa.
Com um complemento que amarra com a seção anterior: o chaveiro conhecido é acessado antes do chaveiro desconhecido. Ele conta ter economizado 90% no valor de uma chave de carro porque achou, pelo conteúdo que o profissional publicava, alguém que fazia aquilo melhor e mais barato que a concessionária.

O gap entre a faculdade e o mercado

Marcel Gama é direto sobre o próprio setor:
As faculdades são muito defasadas em ensinar o que importa para o mercado de trabalho.
E nomeia o mecanismo da inércia:
Eu vejo hoje o mercado de ensino superior vivendo a regra da tartaruguinha. Ah, mas sempre foi assim.
A aposta da UniFECAF para encurtar isso tem um desenho específico: em vez de criar do zero um curso de uma área nova, associar-se a quem já é referência nela. Foi assim com a Rocket City em inteligência artificial e automação, e com a Future Law em direito e tecnologia.
Essa lógica de parceria vale para empresa também. Quando a competência é nova, montar a trilha internamente costuma custar mais tempo do que a janela de oportunidade permite.

A frase que resume o problema de formação

Há vinte anos a gente já falava que está capacitando pessoas para profissões que a gente ainda não sabe quais são, para resolver problemas que ainda não estão sendo enfrentados hoje, usando ferramentas e tecnologias que ainda nem foram inventadas.
Se isso é verdade, e há vinte anos já era, então o objeto da formação não pode ser a ferramenta. Tem que ser a capacidade de aprender a próxima ferramenta. É por isso que trilha de desenvolvimento amarrada a um software específico envelhece antes do fim do contrato de estágio.
E há um agravante do lado de quem forma: desenvolvimento de pessoas é justamente uma das competências mais deficientes na liderança brasileira, segundo o retrato do líder brasileiro.

Assista ao episódio completo

Video preview
Daniel Orlean e Marcel Gama, da UniFECAF, no RHZ com Diego Cidade.

Perguntas frequentes

Quais são as profissões de futuro?
Segundo os convidados, elas já existem no presente: cientista de dados, analista de inteligência artificial, creator profissional e as funções que aplicam IA a um domínio específico, como saúde, direito, esporte e RH. O rótulo importa menos que a competência de aprender a próxima ferramenta.
Como saber quais competências minha empresa vai precisar?
Coletando sinais em vez de tentando adivinhar. O sinal mais legível é para onde o orçamento do seu setor está migrando, porque toda migração de verba cria demanda por um trabalho que antes não existia naquele volume.
Que tarefas serão automatizadas primeiro?
As que cabem numa regra escrita. Se dá para descrever o passo a passo sem depender de julgamento, contexto ou relação, a tarefa está na fila.
A IA vai substituir pessoas no RH?
A leitura do episódio é que ela substitui tarefas, não pessoas, e que o efeito líquido tende a ser mais tempo para o trabalho relacional. Num cenário de atendimento automatizado, o contato humano tende a virar diferencial competitivo, não custo a cortar.
Presença digital importa para quem não é creator?
Na visão de Marcel Gama, sim, para qualquer profissão. Autoridade num nicho aumenta demanda e preço, e hoje se constrói publicando conteúdo, mesmo com audiência pequena.
Vale investir em formação técnica manual?
Os convidados apontam escassez real de profissionais qualificados em ofícios não automatizáveis, com diárias que superam as de profissões que exigiram anos de faculdade. O critério não é manual contra intelectual, é aptidão certa no lugar certo.

O que fazer com isso

Pegue as vagas que você abriu nos últimos doze meses e rode o teste da regra em cada bloco de atividade. O que couber numa regra escrita é candidato a automação, e provavelmente não deveria ser o conteúdo principal de uma vaga de entrada.
Depois olhe para onde o orçamento da sua empresa migrou nos últimos dois anos. É ali que está a competência que você vai disputar no ano que vem, e provavelmente ainda não está no seu descritivo de vaga.
E se a resposta for formar em casa em vez de disputar pronto no mercado, o programa de estágio é a porta. Programa de estágio bem feito é sistema, não improviso. A AU é o Sistema Operacional de Estágio que empresas como Vibra Energia, Ipiranga, ICONIC, Volkswagen e Cyrela usam para atrair, gerir e desenvolver estagiários com método. Fale com a gente e veja como fica na sua operação.

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Escrito por

Diego Cidade
Diego Cidade

CEO da Academia do Universitário

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