Vale contratar estagiário em transição de carreira? Um perfil de perto
Gustavo Castro era gerente de mercado, ganhava mais, e aceitou uma vaga de estágio aos 31. O medo do gestor com esse perfil é previsível. O que aparece quando você olha de perto é o contrário.
O medo é sempre o mesmo, e foi dito com todas as letras no episódio:
O gestor fica com aquele medo de: pô, o cara é mais velho, já é casado. Qualquer oportunidade que pingar, ele vai querer meter o pé.
Esse texto é sobre o que aparece quando você olha esse perfil de perto, em vez de descartá-lo pela suposição.
Gustavo Castro tinha 31 anos quando gravou o episódio, é casado, e aceitou uma vaga de estágio numa cooperativa de crédito no sul de Minas Gerais, na área de pessoa física. Antes disso, era gerente de um supermercado, comandava oito pessoas e ganhava mais.
O que a decisão custou, em termos concretos
Essa é a parte que responde o medo do gestor, e ela não é retórica. Para aceitar a vaga, ele:
Trocou um cargo de gestão por um estágio
Aceitou ganhar menos
Mudou de cidade
Passou a morar com os sogros para viabilizar o orçamento
A decisão foi tomada em casal, e levou dias:
A gente ficou alguns dias para dar esse passo, sabe? De acreditar e falar assim: não, vai dar certo, vamos lá.
Quem monta uma estrutura de vida inteira em torno de uma vaga de estágio não está com um pé fora. O custo de saída dele é mais alto que o de um estudante de 20 anos morando com os pais, não mais baixo. O medo do gestor inverte exatamente o sinal que os fatos mostram.
Por que ele saiu de um lugar melhor pago
A razão não foi insatisfação com o emprego. Foi teto.
Recebi um bom salário, só que eu não conseguia dar um passo. E se eu fosse dar algum passo a mais, ia querer muita coisa. Eu falei assim: eu acho que eu não queria isso na minha vida, não.
E o custo de vida que não aparece no holerite:
O trabalho no mercado é bem desgastante. É de domingo a domingo, você não tem folga. Isso foi me desgastando. Eu, que sou um cara bem família, foi pesando.
Para quem recruta, isso desenha um perfil específico: alguém que já sabe o que é um trabalho ruim e já pagou o preço de estar num lugar sem saída. É uma clareza que dificilmente se tem aos 20.
A conversa do gestor que fez a diferença
O que destravou a decisão foi uma promessa honesta, não uma promessa grande:
O gestor falou: a empresa está em expansão. Pode ser que a gente não te garanta na cidade que você está fazendo o estágio hoje, mas você querendo, você vai conseguir.
Repare no que foi dito: um horizonte real, com uma limitação explicitada junto. Não prometeu efetivação nem prometeu a mesma cidade. Prometeu que existe caminho e disse onde ele não alcança.
É a mesma prática que outra convidada do RHZ chama de bons combinados, e que aparece também em prepare a liderança antes de o estagiário chegar. Candidato adulto responde melhor a limite claro do que a discurso inflado.
A rotina, que é o dado mais duro do episódio
Quando perguntado como concilia tudo, ele descreve o dia inteiro:
Horário
O que faz
6h às 7h30
Estuda a trilha de desenvolvimento
8h às 15h
Estágio presencial
15h às 17h
Café e leitura
17h às 18h30
Atividade física
20h em diante
Certificação CPA-10 e depois faculdade
Ele cursa administração, está no quinto período, e começou a faculdade tarde:
Vim de uma família bem humilde, bem batalhadora. A faculdade eu comecei a fazer bem tarde. Na minha realidade não foi assim de bate-pronto.
Antes disso fez técnico em eletrônica, trabalhou numa instaladora de internet e passou quase quatro anos em escritório de contabilidade.
Esse currículo não é linear, e é exatamente por isso que ele passaria batido num filtro automático. Curso iniciado tarde, período intermediário, histórico de áreas diferentes, idade fora da média. Quatro sinais que muitos processos usam para eliminar.
Ele consumiu a trilha inteira e pediu mais
Sobre o programa de desenvolvimento, o EstagFlix:
Foi bem intuitivo. Eu comecei, gostei, falei: pô, não quero perder mais não. Foi indo, até a hora que eu vi que tinha acabado. Bem que podia ter mais conteúdo.
Completou 100% da trilha. E um detalhe que vale para quem desenha programa de desenvolvimento: o módulo que mais mudou a vida dele não foi técnico.
Essa gestão de tempo de adequar tudo, eu peguei muito do curso. Às vezes eu ficava meio perdido, meio ocioso, pensando no que fazer, e naquele tempo eu já estava perdendo um tempo. Aí comecei a colocar bem planejado no papel.
A rotina da tabela acima existe porque um conteúdo de organização pessoal foi consumido antes. Conteúdo técnico ensina a fazer a tarefa; conteúdo de método ensina a caber tudo no dia.
Coachability: o teste real desse perfil
A maior dúvida legítima sobre contratar alguém mais velho como estagiário não é compromisso, é ego. A pessoa vai aceitar ser orientada por quem tem menos idade?
A resposta dele é específica, e por isso convincente. A colega que o orienta tem 25 anos e está há seis meses na empresa:
Eu estou dando bem valor nela, porque eu estou aprendendo bem coisa na parte interna da empresa.
E ele percebe algo que inverte a relação:
Ela não tem essa base, essa trilha que a empresa está proporcionando para os estagiários. E cada aprendizado lá, eu passo para eles também, ou para a gestora.
Ele aprende a operação com ela e devolve o conteúdo estruturado que ela não recebeu por ter entrado direto como efetiva. Um estagiário virando canal de formação para o time efetivo é um retorno que ninguém coloca na planilha do programa.
A disposição de ensinar vem da experiência anterior como gestor:
Eu ensinava, porque às vezes eu poderia não estar ali, e a pessoa que eu estava capacitando ia estar para suprir o meu lugar. Mas tem outras pessoas que já não pensam assim. Vai da pessoa querer ensinar a outra também.
Como ele lê os colegas mais novos
Esse trecho é útil porque vem de dentro, de alguém que convive com eles todo dia:
Os mais novos vêm com uma mentalidade boa. Aqueles bem mais novos, que não têm 20 anos ainda, estão com aquela: quer fazer, quer fazer, a todo custo.
E a diferença que ele identifica em si mesmo:
Eu estou bem centrado naquilo que é o meu objetivo. Não estou dando tiro para todo lado.
A síntese apareceu na conversa: não é força, é jeito. Energia o mais novo tem de sobra. O que o perfil mais maduro traz é direção, e as duas coisas juntas num mesmo time rendem mais do que qualquer uma sozinha.
Ele também tem uma leitura generosa sobre por que tanta gente demora a começar:
Às vezes a pessoa acaba de sair do ensino médio, vem a pressão familiar, e às vezes a pessoa não está madura o suficiente para dizer o que quer ser. Cada pessoa tem seu tempo.
O número que contextualiza esse perfil
Ele não é exceção estatística. No último ciclo do programa de estágio da Vale, 16,8% dos inscritos tinham mais de 30 anos, e a empresa tem estagiários de 60. Isso aconteceu depois que a companhia passou a dizer publicamente que nunca houve limite de idade, como detalhado em programa de estágio da Vale.
Ou seja: esse público existe, é grande, e está esperando que alguém diga que ele pode se candidatar.
O perfil oposto, de quem chega aos 20 e poucos com empresa júnior e projetos estudantis no histórico, está em o que faz um estagiário se destacar. Vale ler os dois juntos: são dois caminhos completamente diferentes para o mesmo nível de comprometimento, e um programa que só sabe reconhecer um deles perde metade do que poderia ter.
Assista ao episódio completo
Gustavo Castro no RHZ com Diego Cidade.
Perguntas frequentes
Vale a pena contratar estagiário acima dos 30 anos?
O receio comum é de que a pessoa saia na primeira oportunidade. Na prática, quem aceita reduzir renda, mudar de cidade e reorganizar a vida para entrar num programa costuma ter custo de saída maior, não menor.
Existe limite de idade para estágio?
Não há limite superior. A exigência é estar matriculado e frequentando curso compatível. Grandes programas têm parcela relevante de inscritos acima dos 30.
O estagiário mais velho aceita ser orientado por gente mais nova?
Depende da pessoa, e isso se avalia em entrevista. No caso relatado, o estagiário é orientado por uma colega mais jovem, valoriza o aprendizado e ainda devolve ao time o conteúdo estruturado que recebeu na trilha.
Que sinais identificam um bom candidato em transição de carreira?
Clareza sobre por que está saindo do lugar anterior, decisão estruturada e não impulsiva, e disposição explícita de aprender com pessoas menos experientes.
Currículo não linear é problema em vaga de estágio?
Costuma ser tratado como problema por filtros automáticos, mas traz repertório de contextos diferentes. O caso descrito passa por técnico em eletrônica, instalação, contabilidade e gestão de equipe antes da graduação.
O que oferecer para atrair esse perfil?
Horizonte honesto. A conversa que destravou a decisão dele explicitou a oportunidade e também o que a empresa não podia garantir.
O que fazer com isso
Abra o último processo de estágio que você rodou e veja quantos candidatos acima de 28 anos chegaram à entrevista. Se o número for zero, verifique se o corte foi decisão ou hábito, porque na maioria das empresas nunca foi regra escrita.
E na próxima entrevista com alguém em transição, faça uma pergunta só: o que você teve que reorganizar na sua vida para estar aqui? A resposta mede compromisso melhor que qualquer teste.
Programa de estágio bem feito é sistema, não improviso. A AU é o Sistema Operacional de Estágio que empresas como Vibra Energia, Ipiranga, ICONIC, Volkswagen e Cyrela usam para atrair, gerir e desenvolver estagiários com método. Fale com a gente e veja como fica na sua operação.